quinta-feira, 5 de junho de 2014

Notas notívagas

1. (alguém me pergunta por que eu acho o Apichatpong um vigarista. Minha resposta, ou algo próximo disso, abaixo)

"Posso falar do que fica para mim, alguém que passa a se interessar muito pouco por Apichatpong depois de Tropical Malady, que se desinteressa por completo após Syndromes and a Century e que desde então não viu mais nada (ou seja, alguém que fala também de lacunas):

De imediato, essa espécie de paridade biológica a que a câmera dele submete (alguns diriam 'rebaixa') tudo - carne, grama, espírito, logos, cosmos -, e que tende à homogeneidade (aí podem entrar os álibis culturais da religiosidade dele na obra dele, mas isso só não faz um filme, e certamente não confere direta ou imediatamente relevo a um filme); homogeneidade que é como que aderida pela estrutura 'conceitual' dos filmes, lado a-lado b, um variando ou matizando aspectos do outro, na realidade reforçando uma construção rasteira e que pode seduzir quem, por pedantismo ou gosto, não se interessa pelo papel da construção na forma do filme - que é, ou ao menos pode ser, muito mais que um papel meramente 'funcional'. Eu me interesso por esse papel, então reconheço que há um limite meu.

Mas mesmo pegando os cineastas que trabalham a partir da ausência ou do apagamento progressivo ou supressivo da construção e que me interessam imenso, ele me parece querer seguir os passos de uma Duras, de um Warhol ou de um Paradjanov, mas da primeira não tem o erotismo, a evocação da sensualidade pela ausência e o vazio, do segundo não tem a energia e do terceiro não tem a graça e a força contundentes. Fica uma arte da epiderme meio amaciada, meio arejada (talvez demasiadamente arejada, onde os buracos chamam mais atenção do que o que se faz presente), meio morosa, muito inofensiva (outra coisa que o afasta irremediavelmente do Warhol), e que talvez por isso atraia tanta gente. A mim não."

***

2. (Fernando Mendonça, da Filmologia, disse que procura ler opiniões contrárias à recepção monocórdica e consensual que o cinema do Albert Serra vem acolhendo filme a filme, para ver se muda de opinião. Admite que não consegue. Resposta mais ou menos abreviada do que me importuna na obra em questão)

"No meu caso o oposto; tento, até mesmo me esforço para entender o que vêem nos filmes desse sujeito além de uma decalcomania saturada de signos de reconhecimento/legitimação cultural e uma polidez/aplicação estética quase que absolutamente contrárias às exigências intrínsecas de um cinema da depuração, o qual o Serra dá a impressão de praticar. Mas somente a impressão: os filmes têm a perfeita blindagem de produtos de alta circulação para salões culturais, ou seja, carregam consigo todos os ornamentos, os postiços, os artifícios, em suma os excedentes que uma verdadeira arte da depuração ocupar-se-ia apenas de se despojar, coisas que simplesmente não existem nos filmes em que essa prática de fato levou a uma expressão depurada da forma cinematográfica, seja pela extrema abstração, seja pela extrema materialidade, pela fusão componencial de uma na outra ou pela conjugação de uma pela outra: Evariste Galois, Une aventure de Billy the Kid, Othon, Des journées entières dans les arbres... Fora essa estética de mausoléu, blindada, esse enclausuramento do signo em si mesmo, esse cheiro de mofo... Não dá mesmo; é o exato oposto do que fazem um Straub, um Rivette.

E como realizador, acho-o realmente... morno. Os talentos dele me parecem mais o de um fotógrafo, no estilo Jeff Wall (i.e. o pior estilo possível), ou seja, um publicitário com certa habilidade decorativa (= publicitária).

E enfim, sei que é ser ranhento e intransigente, mas ou se é Jeff Wall ou se é Straub; ou se é Paradjanov ou se é Wes Anderson."

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3. (passo a noite em claro e me deparo, i.e. confronto, com o que passa na TV. Minha insônia, i.e. morbidez, faz com que eu permaneça assistindo)

"Michael Winterbottom + Steven Soderbleargh + pedantismo adolescente Debord-Baudrillardiano para quem borra as calças com a mera menção de tatibitati pós-estruturalista + sarau para dondocas Sorbonne-Uspianas + piscadelas para caricaturas juvenis de leitores dos Cahiers e diluições = Boarding Gate

Um dos filmes mais _________ (eu preencho esse espaço com 'antipático', 'desengonçado', 'informe', 'afetado', 'acadêmico', 'abortado', ou tudo isso compilado e sintetizado numa designação mais simples: 'parisiense') da história do cinema.

Se após os chiliques de I'm Not There e a estilização de brechó da frente contemporânea da Eurovisão pasteurizada, do audiovisual e de suas corruptelas contemporâneas (Martin-Gomes-Bonello); se após isso tudo ainda restava alguma dúvida de que a pós-modernidade não passa nem nunca jamais passou de uma enorme caricatura de si mesma, um espetáculo frívolo de acrobacia intelectual, uma pirueta vã, esse filme sana essa dúvida.

Consegue ser ainda pior - ou seja, ainda mais caído, mais anêmico, mais atrofiado e despropositado - que Demonlover e Horas de Verão (mas ainda não chega ao fundo do poço absoluto que se chama Carlos)."

(e não, não vi até o fim, Deus que me livre)

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Dentro de algumas horas devo rever I pugni in tasca e Le rebelle. Não acredito que estes incitarão notas como estas, ou mesmo notas de qualquer tipo.

3 comentários:

Truta disse...

putz, eu vi uns cinco minutos de boarding gate uns anos atrás num dos telecines. me passou uma insegurança (das pessoas envolvidas no filme) que eu nunca tinha sentido com outro filme antes. total falta de direção, num sentido de "rumo" mesmo; total falta de rumo. totalmente perdido, sem noção nenhuma de nada (espaço-tempo-pulsação-o caralho). tive que trocar de canal.

Truta disse...

negócio é ver um bluray rip de phenomena - o oposto de tudo que eu falei ali. e o filme mais 'misterioso' do mundo - aqui que tá acabando de baixar.

Igor disse...

Diretores como Apichatpong apenas desgosto. Como Assayas e Tarantino já nem considero mera questão de gosto. "Carlos", do Assayas, é moralmente indigerível para mim. Principalmente na forma arbitrária com que o diretor combina algumas cenas com canções de rock, como a equiparar na síntese do discurso a imagem dos terroristas com a de estrelas do rock. Em três palavras: glamurização do terrorismo.
Alguns artistas optam por contar as melhores histórias, sobre os maiores homens, das mais belas maneiras. Já Assayas faz coisas como... "Água Fria" e "Depois de Maio".

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