Conversando com o Miguel sobre Anatahan, que tive o prazer de assistir pela primeira vez ontem.
Curioso esse achatamento espacial geralmente adotado pelos grandes cineastas nos seus trabalhos tardios, que faz com que os filmes se assemelhem a diagramas abstratos, violentamente frontais a ponto de parecerem paupérrimos - penso nos filmes do Matarazzo com o casal Sanson-Nazzari, em Beyond a Reasonable Doubt, The Human Factor, A King in New York, The Shadow Box, The Naked and the Dead, Sócrates, Psicose, Ohayô, Rio Bravo, The Cavern, Liberty Valance, Anatahan, Filming 'Othello', The Black Scorpion, Night of the Demon, Most Dangerous Man Alive, não coincidentemente obras-primas, misteriosíssimas como tais em vista de todas as limitações (aparentes) de seus estilos; digo 'aparentes' porque evidentemente trata-se na realidade de dispensar as seduções e os aprazimentos a que as obras anteriores, provavelmente no momento de suas carreiras em que seus estilos floresciam, nos acostumaram, quando talvez ainda tivessem o que provar a si mesmos. Podia falar também dos filmes do Jack Arnold dos anos 50, de Brisseau e Oliveira ou dos primeiros Fassbinder, que mesmo não sendo "últimos trabalhos" correspondem perfeitamente a esse estilo sintético.
Há também o fato, bem lembrado na discussão pelo Miguel, de que além da austeridade e da síntese com que tornam desnecessário enfatizar, demonstrar ou chamar a atenção para o que quer que seja, tais cineastas, desfalcados da série A para uma espécie de "série B extra-industrial", fizeram o único cinema verdadeiramente "indie" e "underground" a partir da escassez dos pressupostos com que atuavam (sucessores: Raoul Ruiz, Luc Moullet, talvez Chabrol).
Última observação: o aplainamento espacial seria, contrariamente ao 3D, a verdadeira culminação de todo grande cinema? (exceções: Cimino e Straub/Huillet, os únicos cineastas verdadeiramente 3D de toda a história do cinema)
domingo, 31 de julho de 2011
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E Murnau, Murnau também era 3D. Aliás foi ele que inventou essa coisa, no "Fausto".
Estava pensando exatamente nele agora, nele e no Cottafavi. Adições tardias.
Aqui
"Os únicos" es tal vez demasiado restrictivo. Además de Murnau, desde bien temprano, y de Cottafavi (sobre todo en TV!), se me ocurren Mizoguchi, Preminger, Lang y Ophuls, y también, al menos ocasionalmente, Ford ("How Green Was My Valley", "The Grapes of Wrath", "3 Godfathers", "The Searchers"...), Anthony Mann ("The Tin Star", "Winchester '73"), Renoir, y hasta Hitchcock ("Under Capricorn") o Welles ("Touch of Evil", "The Trial"), que nunca necesitaron recurrir a las 3 D para crear, pese a la condición plana (2 D) del cine, una sensación de profundidad (volumen hacia dentro) en lugar del efecto espectacular (dirigido al espectador) hacia fuera que domina los films en 3-D actuales (con la posible excepción de "The Hole" de Joe Dante).
Em meio a alguns desses cineastas, e inclusive num caso específico como o do Preminger, há ainda alguns filmes que transitam entre um tipo de procedimento de apreensão do espaço cênico e outro: penso nos casos de Anatomia de um Crime, Shin heike monogatari, The Naked Dawn (Ulmer, herdeiro de Murnau e colega em miséria draconiana de Arnold, Ludwig e Eugène Green...), vários Rossellini televisivos, alguns dos últimos do Chabrol, Beatrice Cenci - sem meio termo e aparentemente pelas limitações que as lentes CinemaScope apresentavam nos seus primórdios: para romper com o binômio frontalidade/lateralidade imposto pelas lentes que o formato dispunha então (se não me engano só existiam lentes CinemaScope 30/50/70 mm. na época, por isso quase todos os filmes em Scope feitos até 55 rigorosamente não possuem closes), Freda mobiliza uma câmera perscutória que recolhe e acumula numa trajetória febril elementos espalhados no interior do décor - aqui.
O caso de Naked Dawn é provavelmente o mais característico: o cineasta reprime todo relevo espacial e só o libera nos momentos em que alguma atividade física do ator, ou entre atores, desarticula ou rearticula o jogo de cena (mesmo caso em Anatomia de um Crime, mesmo caso com as mãos se encontrando e se tocando em Le monde vivant). Aqui.
Cottafavi, Cimino, Straub/Huillet e Murnau são casos ainda mais extremos, visto que em todos os seus filmes só trabalharam com uma concepção do espaço em três dimensões (não à toa os televisivos do Cottafavi são aqueles em que essa característica mais vem à tona: a fluidez e a mobilidade da câmera de vídeo, mesmo no seu protótipo mais rudimentar, adequa-se perfeitamente às premissas dessa concepção espacial - aqui e aqui).
Outro filme genial, e terminal, que opera maravilhas com o espaço aplainado: Merrill's Marauders (o que talvez tenha a ver com o scope laboratorial do filme, que foi não foi rodado com lentes anamórficas).
Talvez tenha a ver também com o fato da foto ser do William H. Clothier, gênio absoluto - Liberty Valance, Distant Trumpet, Deadly Companions, Horse Soldiers, Seven Men from Now etc.
"Sem meio termo", no caso do Beatrice Cenci, no sentido que ou o Freda emprega como solução teatral composições escancaradamente frontais - aqui, aqui e aqui - ou conduz a câmera, segundo sua própria definição, rumo à descoberta progressiva do décor - aqui, aqui e o vídeo acima.
Sería interesante reenfocar la historia de cine desde el punto de vista de la tridimensionalidad (ya presente en Lumière) y la bidimensionalidad, teniendo en cuenta que muchos cineastas pasan de una a otra, según el planteamiento de cada película, o juegan con ellas dentro de un mismo film (Griffith, Hitchcock, el propio Straub). "Zengiku Monogatari"(1939) y "Genroku chushingura"(1941-2) de Mizoguchi, o "La Règle du jeu"(1939) de Renoir me parecen tempranos ejemplos de ese juego.
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