o signo do dragão

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O mito que precisa ser extirpado, extinguido de vez (como foi, por exemplo, a seleção brasileira nas mãos da alemã ontem), é o de que em algum momento o clássico alcança o moderno e assim é finalmente superado por este (o que fica indiretamente, ou seja, covarde e convenientemente implicado por tal idéia é o seguinte: o classicismo torna-se nessa ordem das coisas o obsoleto, o ultrapassado, o desnecessário, o decorativo, um esqueleto sem sangue e carne, um mero excedente).

Em 1950 Jacques Rivette já sabia que a questão crucial da modernidade, sua quintessência (sua finalidade, seu gesto de consumação: a depuração suprema que conduz ao próprio apagamento do autor pela obra, do gesto criador pela criação; da paixão de Dante à poesia de Mallarmé; das cantatas de Bach aos travellings do Straub), indicava justamente o contrário: o clássico é o destino do moderno. "Você não deve ser um autor clássico. Você tem que se tornar um." (Valéry)

Foi assim, assim apenas, e não de outra forma que em 1999 o Brasil viu o seu último filme verdadeiramente moderno sendo feito: não é Humberto Mauro que alcança Rivette, não é Rossellini conjugado por Werner Schroeter. É a precipitação dos ângulos ao mesmo tempo disparatados e miraculosamente complementares do Rivette que alcançam a serenidade do Brasil profundo de Humberto Mauro; são as arestas da alegoria schroeteriana que se acoplam à epifania rosselliniana.

(um outro nome para esse alcance: generosidade)

Um cinema que, apesar de profundamente enraizado numa tradição, não se conforma em apenas reproduzir a enésima significação acadêmica dos conteúdos desta. Pelo contrário: irriga-lhe sangue novo e ressuscita-a. Um milagre.

Esse milagre - seu mistério e, por conseguinte, a pertinência (a presença, a confirmação) de sua vitalidade perene - é completamente encarnado no final de O Viajante.

(a ressurreição da Leandra Leal)

É a esse milagre que damos (insistimos em dar - alguns de nós, pelo menos), ainda hoje, o nome de "modernidade".

sexta-feira, 4 de julho de 2014

"To exorcise horror, we use many means, from whisky to tv"

A genre I'm well versed in is the so-called "horror film", although I prefer the French term film d'épouvant. I explained quite a few times what's my definition of horror. It's got nothing to do with monsters or things like that. I think that's a cheap way to scare people, worthy of carnivals... The "real" horror is hidden inside us since our birth. It's an atavic terror which dates back to cavemen, when our ancestors, the link between monkey and the first humanoids, hid in the deep of their badly lit caves, while outside, in the dark of those endless nights, tremendous apocalyptic storms broke out, and frightening roarings could be heard. And those helpless creatures couldn't do anything but hold each other in fear. The first terror is that of the dark.

That's the real horror: that of something you can't see, of a noise that makes you shiver. In all of my films there are doors that open in the dark with no sound, creakings and rustling noises, a branch tapping against a window like the hand of a ghost.

Ghosts. The beyond. A riddle that many people pretend to ignore. Spirits, or revenants as the French call them... those who come back. Many people, because of their ignorance, just refuse to talk about this. But I believe they are part of our reality. Ghosts frighten us, and when they are not "real" ghosts the effect is even more disquieting. Anyway, what they stimulate is our fear of the unknown, of the dark. To us, darkness means death. When a storm breaks out, the effect is complete. And the ones jumping on their seat just don't know that, for a brief moment, they look exactly like their ancestors in the caves.

To exorcise horror, we use many means, from whisky to tv. They make us sleep. But even sleep isn't safe. Because our unconscious fills our dreams with nightmares... It's the Devil that plagues our nights, and it's he who rules our actions. He makes us envious, greedy and lustful, and leads us to sin, in its most horrible forms: from incest to matricide. That's the other recurring point in my films: man as an evil, devilish entity. Men who hide their real self under a mask of respectability, but are indeed capable of the most horrendous crimes.

I've always been fascinated by magic: as a child, instead of Little Red Riding Hood, I used to read Eliphas Levi. I was fascinated by vampires. I think they really do exist, and are next to us, even though they don't have fangs and may die of a heart attack. To be a vampire means to live with someone who is much younger, sucking their strength, their ideas, their feelings. If you live with old people, you start thinking about death... to make audiences accept the notion of a modern-day vampire I had to show an old woman draining a young girl's blood. But, believe me, the world is full of vampires that are sucking the best off of you, even though no one's aware of it.

Riccardo Freda, "Mario Bava - Master of Horror", Luigi Cozzi, Profondo Rosso, maio 2012









"Wells, verossimilmente, desconhecia o texto de Coleridge; Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. Claro está que se é válida a doutrina de que todos os autores são um autor, tais fatos são insignificantes. Rigorosamente falando, não é indispensável ir tão longe; o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista, segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Para as mentes clássicas, a literatura é o essencial, não os indivíduos. George Moore e James Joyce incorporaram em suas obras páginas e sentenças alheias; Oscar Wilde costumava presentear enredos para que outros executassem; ambas as condutas, embora superficialmente contrárias, podem evidenciar um mesmo sentido da arte. Um sentido ecumênico, impessoal… Outro testemunho da unidade profunda do Verbo, outro negador dos limites do sujeito, foi o insigne Ben Jonson, que empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames propícios ou adversos que mereciam seus contemporâneos, limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca, de Quintiliano, de Justo Lipsio, de Vives, de Erasmo, de Maquiavel, de Bacon e dos escalígeros.

Uma observação, última. Aqueles que minuciosamente copiam um escritor o fazem impessoalmente, o fazem porque confundem esse escritor com a literatura, o fazem porque suspeitam que apartar-se dele num ponto é apartar-se da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos, cri que a quase infinita literatura estava num único homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey."

Jorge Luis Borges, Outras Inquisições

quinta-feira, 19 de junho de 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

Recently, I started watching a series of films in 3D. That made me want to do a remake of Des jeunes femmes disparaissent, a film that I shot forty years ago, first in 8mm and then in Super 8. It was a thriller, in black and white, and it gave Eric Rohmer and Maurice Pialat the fright of their lives.

(...)




Predicated on the development of a narrative convention both strict and elastic enough to accommodate a tension between dramatic probability and fantasy, between the continuity of suspense and the discontinuity of structure - between discourse and poetry, in short - Feuillade's work relates more to the future of film than to its past. Which is to say, as Robbe-Grillet has said, that "Imagination, when really alive, is always of the present."

Annette Michelson, Film and the Radical Aspiration, Film Culture, n° 42, outono de 1966



segunda-feira, 16 de junho de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

"O que fizemos foi tirar tudo o que não gostávamos e usar o resto." - RAMONE, Johnny







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