Raramente iam ao concerto, menos ainda ao teatro. Mas se encontravam, sem ter combinado, na Cinemateca, no Passy, no Napoléon, ou nesses cineminhas de bairro, o Kursaal, em Gobelins, o Texas, em Montparnasse, o Bikini, o Mexico, na praça Clichy, o Alcazar, em Belleville, outros mais, perto da Bastilha ou no Quinzième, essas salas sem graça, mal equipadas, que pareciam ser frequentadas apenas por uma clientela heterogênea de desempregados, argelinos, velhos solteirões, cinéfilos, e que programavam, em infames versões dubladas, essas obras-primas desconhecidas das quais eles se lembravam desde os quinze anos, ou esses filmes com fama de geniais, cuja lista sabiam de cor e que, fazia anos, tentavam ver, sem conseguir.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
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5 comentários:
Rissient: 1 2
Ah sim: além da ausência de quaisquer comentários sobre a importância, em relação ao trabalho crítico do Daney, dos textos que Skorecki, Biette, Legrand, Guiguet escreveram durante os anos 70, 80, 90, o cara termina com o desserviço final e supremo à sua própria pesquisa quando não cita, nem mesmo rapidamente, o Dictionnaire des films, em que Lourcelles, fora a catedral crítica incomparável que ergue metodicamente do A ao Z, acaba realizando indiretamente um trabalho muito mais satisfatório sobre essa mesma cinefilia que o De Baecque tentou retratar. Cedo aqui a palavra ao Adriano Aprà (o Othon do Jean-Marie Straub): "Anche i macmahoniens si sono evoluti, e il Dictionnaire des films di Jacques Lourcelles, con tutte le sue idiosincrasie antimoderniste, lo testimonia, e continua a essere un mio livre de chevet" e ao Biette (Martian no mesmo filme do Straub): "C'est à ce titre que, même bardé de ses dégoûts pour des aventures de cinéma qui l'indignent (Godard, Pasolini, etc.) et qu'il préfère taire, le dictionnaire de Lourcelles, parce qu'il refuse d'accepter le verdict de l'Histoire officielle et ose donner les résultats d'un examen esthétique personnel réalisé dans le temps sans hâte de re-visions espacées, est le seul livre alphabétique, avec Cinémanie de Gérard Legrand, à rendre justice à un cinéma - Dwan, Walsh, Tourneur, Ulmer, etc., qu'il inscrit bien au-delà du simple principe de plaisir cinéphilique - dont l'enchantement se prolonge malgré les formules de l'époque, qu'on ne supporte plus dans les films ordinaires qui se contentaient de les régler sans y rien ajouter, ni tissage interne, ni tonalité de décalage, ni impérative vision humaine sur les tréteaux du monde. Bref, Lourcelles a fait au mieux pour défendre les conventions contre les clichés jusqu'au seuil douloureux de la modernité qu'il ne franchit pas."
Respondendo ao Lincoln: se você só tomou conhecimento da existência do macmahonismo através do livro do De Baecque, não tenha a menor dúvida que você ficou com uma idéia completamente distorcida, para não dizer atrofiada, do negócio (a frase que você citou em particular é de uma infelicidade grotesca, não só do ponto de vista da idéia que ela exprime mas também e principalmente pelo fato de ter sido escrita por um sujeito que se auto-proclama crítico de cinema - é de se exigir um juízo no mínimo um pouco mais aprofundado e desenvolvido ao invés do opinionismo que pauta quase tudo o que ele escreve no livro, e não é só na parte do macmahonismo não). O que o De Baecque faz é a típica propaganda/pichação cahierística que vem na cola dos redatores que vêem os macmahonistas como a nódoa negra da história dos Cahiers, da crítica de cinema e da cinefilia. Não à toa isso é e vem sendo feito por gente como Aumont, Bonitzer, Pascal Kané, que como críticos de cinema, por melhores que tenham sido, não são, nunca foram capazes de segurar uma vela perto do que Mourlet, Demonsablon, Lourcelles, Douchet, Skorecki, Guiguet ou Biette produziram, com tudo o que há ou pode ter de problemático, bizarro ou questionável nas suas idéias e nos seus gostos. Correção intelectual escancarada e revisionismo afrontoso vindos daqueles que se ocuparam de escrever a história ao invés de somente agir nela, "senhores da história" nos melhores moldes do terrorismo pós-68 (lembro, por exemplo, de uma entrevista dada ao Toubiana e ao Jean Narboni em que o Biette volta e meia os corrige em relação a certas colocações equivocadas e apressadas que fazem sobre o macmahonismo). Como eu disse anteriormente: da mesma forma que há o que se contestar nas idéias do macmahonismo, de alguns excessos da editoria do Rohmer ou das ações dos jovens turcos, há muito - talvez até mais - a se contestar em inúmeros abusos pós-estruturalistas, de ordem da prolixidade ou do esoterismo intelectual (a utilização forçosa de um jargonismo acadêmico extraído de leituras de Barthes, Lacan, Derrida, completamente impróprio à linguagem da crítica de arte), ou ainda nessa submissão recorrente dos Cahiers a todo tipo de signo - do mais superficial ao mais furtivo - de modernidade num filme, algo que fez com que a revista em inúmeras ocasiões confundisse pose moderna com modernidade cinematográfica, que na sua integridade, na sua verdadeira concepção, abrange tanto Murnau, Lang, Griffith quanto Monteiro, Costa, Oliveira - felizmente ainda há críticos, como Douchet, Moullet e Aprà, todos já afastados do Cahiers diga-se de passagem, bastante atentos e adeptos a essa noção, i.e. o texto de Godard sobre Man of the West.
Para algumas precisões vindas de gente que conhece a história do Mac-Mahon e não traz consigo prejuízos de agenda cahierista, sugiro ler isto (ou se quiser aqui), ou esta entrevista em inglês do Serge Bozon. Há também uma entrevista do Rissient pela Axelle Ropert na edição nº 26 da Lettre du Cinéma (ótima revista, no geral superior ao que o Cahiers vem sendo nos últimos anos), que eu não li mas em que eu sei que ele fala bastante sobre o macmahonismo.
De fato, a quantidade de desinformação que um livro como o do De Baecque pode disseminar só não me assusta mais porque ainda não vi uma propagação muito grande das impressões (muito mais que idéias ou fatos) que ele legitima. O triste é que muita gente deve sair achando que conheceu a verdadeira história da cinefilia lendo aquilo, quando na realidade o livro nada mais fornece que uma série de juízos oportunos a serviço de uma representação muito truncada dos fatos que descreve.
Por exemplo: se alguma razão lhe assiste na leitura que fez do texto do Paul Agde sobre Merrill's Marauders, a leitura que ele faz do texto do Lourcelles é completamente descabida, absurda. E o livro segue nessa pegada do início ao fim.
Isto ("la cinéphilie à commencée avec Rivette") e isto - ótimo.
E sintomático, quando, por exemplo, Toubiana insiste numa defesa do Godard e da cinefilia repetindo incômoda e exaustivamente "Eu caí de amores pelo cinema porque quando aos 15 anos vi um filme do Godard" (depois sobra pro macmahonismo ser inscrito "ao simples princípio do prazer cinefílico", como o Biette bem refuta na sua apreciação do dicionário do Lourcelles), ou ainda quando esse lastimável do Kaganski diz "J'ai jamais voulu faire un film": taí a diferença deles pros que os precederam.
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