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terça-feira, 10 de junho de 2014

sábado, 5 de março de 2011

Sergei Eisenstein: A matéria física das ideias

3 de Dezembro de 2008, 0:00 (actualizado a 9 de Dezembro de 2008, 0:00)

O cinema é uma arte impura e vampírica: a história da moeda na ranhura para ver as primeiras imagens em movimento, o roubo continuado às outras artes, anteriores e mais nobres. Sabe bem, num tempo de abastardamento e infantilização dessa coisa que ainda se chama "cinema", poder agradecer a um artista, melhor, a um génio, possuidor de um cérebro desmedido, prenhe de saber e de um olhar alucinado de visionário. O que ele fez para tornar essa "arte" mais pura, arrancando-a dos pecados originais, atirando-a para cimos elevados perto das nuvens e da transcendência! Um deus científico com uma vida tão polifónica como as formas que criou.

Apetecia-me falar dos desenhos únicos, da extraordinária inovação dos textos teóricos, que tentavam fixar até ao limite do impossível a criação desmesurada do artista, da sua aproximação e afastamento a Freud, do Ulisses de Joyce, que ele elegeu como Bíblia do seu novo cinema, e de muitos, muitos etcéteras. Mas pediram-me um texto pessoal. Coragem, porque eu lhe devo, pelo menos, três saltos catastróficos (boas coisas, porque mexem o mundo) na minha vida.

Primeiro movimento - Sessão clandestina no Cineclube de Coimbra em 1968, O Couraçado Potemkine. Rebentou-me a cabeça e as convicções, a mim, católico e reaccionário. Movimentos colectivos. Comissão da cantina. É no estômago que as revoluções começam. E sentimo-nos todos pequenos imitadores de heróis de Eisenstein, com uma missão a cumprir. Assim começou a crise de 69 e a minha pequena e ridícula contribuição para a mudança do mundo. Segundo movimento - Escola de Cinema, finais de 1974. Como todas as coisas normais, também as aulas foram destruídas. Os alunos ao poder. Trouxemos Jacques Aumont e passámos 15 dias consecutivos de manhã à noite com A Linha Geral ou O Velho e o Novo.

É na montagem que tudo existe, é lá que tudo se decide. Na revista M, que eu fiz com uns amigos, está publicado o resultado dessa aprendizagem. Ninguém foi tão longe como Eisenstein na afirmação daquela certeza (talvez, anos depois, mas de um modo muito mais pálido, outro grande artista falou e praticou isso - Godard), chegando mesmo a tornar físico, palpável e material o "E", a coisa não filmada e a maior de todas.

Um plano "E" o outro. A composição polifónica: a abstracção plástica, o acontecimento objectivo e a reacção subjectiva no mesmo plano. E depois, desenvolvida na montagem sobretonal, vinda claramente da música, onde as cordas da narrativa se separam e se juntam tocando todos os sentidos e todos os neurónios. Sacrifícios e redenções, oceanos de crueldade e purificação do povo, metáforas arrasadoras logo desligadas num mar da redenção metonímica. As associações que afinal são o cinema.

Terceiro movimento - Tempos Difíceis, 1987. Sem o texto maravilhoso de Eisenstein Dickens, Griffith e Eu, nunca teria feito aquele filme como o fiz. Retirar toda a carne e a "lamechice" do romance para chegar ao osso e tornar a matéria da estrutura visível. Foi Eisenstein que me ensinou que afinal o inventor da arte cinematográfica era Dickens, anunciando-a muito antes de chegar a técnica que a permitiu. Se um capítulo acabava num evidente plano geral, o seguinte começava claramente na descrição de um grande plano. Até era possível encontrar ao longo do romance a figura mais mágica e produtiva, a elipse cinematográfica.

Lembrem-se da figura de Ivan, hierática, vertical e terrível, o ideograma eisensteiniano vindo de um pictograma da arte japonesa (um pássaro no céu) ocupando o terço direito do enquadramento e nos outros dois terços, vindo do horizonte plano, um mar de povo contorcendo-se em curvas. A turbulência que ameaça tudo pôr em causa. Não sentem o cérebro inflamado, as pernas a tremer e um aperto no coração? Não tenham medo, é só a matéria física das ideias.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Telecine Cult neste mês

DELICADOS, OS (STAIRCASE) EUA/FRA/ING-1969 • Dir: Stanley Donen • Com: Richard Burton, Rex Harrison • 100' • C • TA • CP: 12. O cabeleireiro Harry tem de se dividir entre sua mãe doente e seu parceiro Charles, com quem tem uma relação de anos. TCL Dia 30 às 20h10

DIAS DE JUVENTUDE (WAKAKI HI) JAP-1929 • De: Yasujiro Ozu • Com: Ichiro Yuki, Tatsuo Saito • 107' • PB • SR • CP: Livre. Drama mudo sobre dois amigos de escola que brigam pelo amor de uma mesma menina. TCL Dia 19 às 7h30

FILHO ÚNICO (HITORI MUSUKO) JAP-1936 • De: Yasujiro Ozu • Com: Choko Iida, Shinichi Himori, Masao Hayama • 83' • PB • TA • CP: 12. Viúva cria sozinha o filho e, para que ele termine seus estudos, vende suas terras. TCL Dia 20 às 7h35

LEVANTA-TE, MEU AMOR (ARISE, MY LOVE) EUA-1940 • De: Mitchell Leisen • Com: Claudette Colbert, Ray Milland • 113' • PB • SR • CP: Livre. Prisioneiro americano aguarda sua execução quando repórter lhe propõe fuga arriscada. TCL Dia 12 às 13h40 – dia 15 às 12h50 – dia 27 às 19h55

MENINOS DE TÓQUIO (UMARETE WA MITA KEREDO) JAP-1932 • De: Yasujiro Ozu • Com: Tatsuo Saito, Mitsuko Yoshikawa • 91' • PB • TA • CP: 12. Dois irmãos se revoltam ao descobrir que seu pai é completamente submisso e subordinado ao chefe. TCL Dia 14 às 8h05

NO MUNDO DA LUA (THE MAN IN THE MOON - 1991) EUA-1991 • De: Robert Mulligan • Com: Sam Waterston, Tess Harper • 99' • C • TA • CP: 12. Adolescente disputa com a irmã caçula o amor de um rapaz mais velho. TCL Dia 21 às 5h35

PECADORA, A (SEVEN SINNERS) EUA-1940 • De: Tay Garnett • Com: Marlene Dietrich, John Wayne • 87´ • C • SR • CP: Livre. Provocante cantora faz grande sucesso com os marinheiros no Café Seven Sinners. Porém, existe um em especial: o ciumento tenente. TCL Dia 27 às 14h30 – dia 29 às 4h30

PERDIÇÃO DE OSEN, A (ORIZURU OSEN) JAP-1935 • De: Kenji Mizoguchi- • Com: Isuzu Yamada, Daijirô Natsukawa • 97' • PB • TA • CP: 12. Duas amigas são empregadas de inescrupuloso homem que acaba preso. Para conseguir dinheiro, uma delas tem que se prostituir. TCl Dia 30 às 10h

PREÇO DA SOLIDÃO, O (THE EFFECT OF GAMMA RAYS ON MAN-IN-THE-MOON MARIGOLDS) EUA-1972 • De: Paul Newman • Com: Joanne Woodward, Nell Potts • 101´ • C • SR • CP: Livre. A difícil vida de Beatrice, uma jovem viúva com duas filhas para criar. TCL Dia 29 às 20h05 – dia 31 às 11h45


Tem mais coisa, mas eu já gravei.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Têtes brûlées

CinéCinéma Classic, 17 Heures.

par Louis SKORECKI

Tu t'inquiètes pour rien, avait dit Caroline, monsieur Edouard a beaucoup changé, il est doux comme un agneau maintenant. Juste un peu exalté, avait-elle ajouté, mais rien de grave, ça lui passera. Tu sais qu'il me manque, je dis, même s'il me fait toujours un peu peur. Sa précision cinéphile me serait d'un grand secours sur Walsh. Tu me mènes en bateau, Louis, dit Caroline, Walsh, c'est ta spécialité. Tu as même écrit un livre sur lui, non?Je ne suis plus sûr de moi ces temps-ci, je dis. David, mon petit-neveu, doit rendre un devoir sur Têtes brûlées, et, là, je sèche. Depuis quand oblige-t-on un élève à étudier un Walsh de 1929, demande Caroline, un Walsh à peine parlant? Il a Jacques Aumont comme prof invité, je dis, et comme Aumont ne jure que par le muet en ce moment, ils y passent tous. Si seulement monsieur Edouard était là, il lui raconterait Walsh mieux que moi.

A peine a-t-on prononcé son nom que monsieur Edouard se pointe au quart de tour. Le plus étrange, c'est qu'il sait déjà de quoi on parle. A croire qu'il a un espion dans la maison. The Cock-Eyed World, dit-il, excusez-moi mais je préfère le titre original, ce n'est pas n'importe quel Walsh. Il n'a rien de muet, d'abord, il parle autant qu'un Capra. Et c'est plus original que Big Trail que Walsh tourne quelques mois plus tard. Mieux que Big Trail ? dit Caroline, c'est impossible, c'est un film d'une beauté sidérale, même John Wayne (dont c'est le premier film, je te signale) a le charme sidéral d'une Garbo. On sait tout ça, répond monsieur Edouard avec un calme inquiétant, mais ce que tu ne sais pas, c'est que les personnages de Cock-Eyed World sont empruntés à What Price Glory, un Walsh muet adapté d'une pièce de Maxwell Anderson (dont Ford fera un remake trente ans plus tard). Walsh a tellement aimé ses personnages qu'il les a repris en 1931 dans Women of All Nations. C'est David qui va être content, je dis, et Jacques Aumont encore plus.

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