quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ENTREVISTA com Jean Douchet

Pode-se falar em renovação do cinema?

Jean Douchet: A renovação é fenômeno normal, em arte: há épocas clássicas, épocas maneiristas ou flamboyantes, barrocas; depois disto, alguma coisa renasce. O movimento que era bem visível há 5-10 anos, de capitalização do cinema precedente, no que tinha de ‘alimentar’ para o imaginário dos outros, começa a desaparecer; estamos recomeçando a construir alguma coisa a partir daquilo. Vê-se claramente em todos os cinemas do mundo, dos mais diferentes diretores. Impressiona-me a quantidade de rumos diferentes que o cinema está tomando, em vários lugares do mundo: pode-se falar do “Dogma”, de Kiarostami, dos cinemas asiáticos, do cinema americano que se torna múltiplo – e que não era múltiplo, antes, limitado entre o cinema bem enquadrado de um lado, e o cinema marginal e independente de outro. Tudo isto se mistura cada vez mais. Há claramente uma necessidade de reconstruir um discurso, uma escritura, um pensamento, e acho que isto está ligado a uma necessidade mais geral, mais política e sociológica: a inquietude que se sente em face de um mundo cujas regras já não compreendíamos, pois já não havia regras. E começa-se a perceber que, mesmo assim, há um combate que temos de combater e que isto se traduzirá em filmes; e neste combate que temos de combater haverá também filmes feitos por gente a favor do sistema. De fato, são dois combates, ou contra ou a favor. Um pouco, estamos de volta à Guerra Fria, apesar das diferenças. Haverá – e é simbólico – o campo Spielberg e o campo Kiarostami, os que querem destruir o cinema satisfeito consigo mesmo e os que são contestáveis, porque apostam numa certa baixeza do olhar do espectador.

Não é crime fazer cinema caro, pode-se fazer qualquer coisa, penso em De Palma ou Coppola, mas estes não são os cineastas que têm mais dificuldades com o sistema. Os que não têm dificuldades com o sistema são os que fazem os filmes mais caros, para cercar todos os sentidos do público. Os outros cinemas são cada vez mais diversos, e o ponto em que se pode pensar em engatar uma segunda é que a multiplicidade dos cinemas faz surgir cada vez mais gente interessada por este cinema. O problema é que se divulgam hoje todos os cinemas, filmes que não se viam antes e hoje se vêem, isto faz ferver muito o ‘caldeirão cultural’.

“Cinema de conhecimento”

Sou por um cinema de conhecimento, o cinema é feito para fazer-conhecer, é sua origem científica; ou o cinema é feito para distrair e divertir, o que não é mau em si, não há por que ser contra. Também pelo divertissement pode-se chegar ao conhecimento, como Hitchcock mostrou tão bem. Não há incompatibilidade. Inaceitáveis são, isto sim, os que recusam completamente o fenômeno do conhecimento e querem impor uma ideologia, uma visão de mundo. Kubrick fala disto em seu último filme: de o quanto estamos contaminados, cancerizados pelo dinheiro. Estamos destruídos, perdoe-me a expressão, até os colhões. Estamos destruídos. Não é verdade que haja instintos, somos produtos da sociedade até nossas partes mais íntimas, somos ligados ao dinheiro, o que se traduz no filme pela luz, a luz é a encarnação do dinheiro, como as sociedades sonham o mundo. Estamos destruídos por estas cintilâncias e gostei muito de que os americanos não tenham gostado do filme; é sinal de que não conseguiram não sentir.

É curioso, porque, se se pensa no período 1907-1910, quando a surpresa do cinema começa a diminuir e tudo passa a ser jogos de trucagem dos quais, parece, o público gosta... imediatamente depois surge Griffith, que mostrará que o cinema é completamente outra coisa. Hoje, é esta avalanche de efeitos especiais, o virtual etc. Nada disto é importante. Nada impede que se use seja o que for, qualquer procedimento, pode-se perfeitamente fazer um filme completamente virtual e fazer um grande, enorme filme. Tudo dependerá do pensamento que haja no filme. Se for completamente comercial não interessará. Os filmes estão ficando cada vez mais caros e, um dia, alguém aí quebra a cara.

“Os grandes filmes estão sendo fetichizados”

O conhecimento hoje se reduz à fetichização do próprio filme: conhecemos todas as falas, respondemos em coro com os atores... É uma espécie de ridicularização do filme, mascarada em manifestações de adoração. O jovens não viram os filmes, como nós, em cinemas, em película, em 35mm.; vêem em vídeo. Mas, de qualquer modo, eles têm uma relação possível com o cinema, que é franca, interessada. É verdade que já não crêem no cinema, conhecem os truques, zooms, travellings etc. Então, procuram a parafernália tecnológica dos efeitos especiais, ou, ao contrário, querem encontrar elementos de ‘verdade’ que os interesse ver. Ao mesmo tempo, os cineastas têm de considerar que o público já não é virgem, quer dizer, é blasé. É preciso oferecer ao público, também, um modo de ver. De que modo você vê? Você vê para quê? Se vê apenas para comprar o sensacional, a mercadoria, então este olhar é imundo.

Se o comunismo morreu, em colisão frontal contra o muro de Berlim, estou praticamente convencido de que o capitalismo morrerá logo, em colisão frontal contra o muro do dinheiro, o próprio dinheiro que move o mundo, à custa de correr desatinadamente rumo a nada. Estamos correndo o risco de desequilibrar equilíbrios vitais e isto ganhará forma visível, cinematograficamente falando. O público pressente isto. Os jovens, hoje, são atormentados pelo desemprego. Isto altera o modo como eles vêem o mundo. É preciso que alguém ponha em imagens, na tela, estas angústias, estas perguntas... mesmo que não sejam reproduções naturalistas, ‘como na vida real’. Rosetta por exemplo, que não é nenhuma obra-prima, é um filme importantíssimo porque muita gente se reconhece naquela personagem, que é excessiva, sim, mas que diz isto. E há um olhar que vê aquele filme, um efeito, um estilo. Rosetta é Palme d'Or em Cannes, se comparado a filmes muito mais prestigiados. É possível, há a possibilidade, dentro do próprio cinema, por imperativo artístico, de nadar contra a corrente do pensamento dominante (que é o pensamento da grana).

Quem queira ser totalmente independente, tem de voltar ao cinema puramente experimental, claro, com câmera digital, ou vídeo, e filmar sem gastar nada, ou gastando quase nada. O experimental também pode trabalhar com orçamento mais folgado, é claro, são possibilidades da escritura.

Se um diretor como Lars von Trier pode trabalhar assim, é porque atraiu capitais. Seja como for, sempre estamos dentro de um sistema em que a obra de arte é mercadoria, avaliada como mercadoria – mas pode ser boa arte.

Todos os cinemas são possíveis. Mas, nos próximos dez anos, se não se mudar o sistema de distribuição, desaparecerá o cinema independente. Ou as salas equipam-se para diminuir os custos de distribuição (cópias, aluguéis, fretes, seguros). O verdadeiro problema é como informar ao público potencial do cinema independente que este cinema existe e fazê-lo desejar conhecer este cinema. As grandes produções não têm este problema, porque se alimentam da culpa que a publicidade comercial cria entre as pessoas que não conheçam os filmes arrasa-quarteirão. A crítica também é culpada, porque não fala senão dos filmes mostrados ‘à imprensa’.

“Todo o sistema tornou-se fantasmático”

Todo o sistema tormou-se fantasmático. Há a grande estrutura, mas não há nada dentro dela. Veja as redes Multiplex. É uma loucura, conversa pra engambelar otários: fingem que nos oferecem variedade, mas, cada vez que pagamos para assistir à ‘variedade’ das redes Multiplex estamos, ao mesmo tempo, matando todo o outro cinema, o cinema independente, quer dizer, estamos matando a multiplicidade. E quando, por acaso, algum filme independente consegue acesso àquelas salas é para ser massacrado pelas baixas audiências, salas vazias etc. Os próprios Multiplexes condenam-se à morte. É o fenômeno do ogro: mais cedo ou mais tarde, o ogro destrói-se, ele mesmo.

O que temos de construir são verdadeiras novas vias para difundir o cinema independente – o que implica, sim, o problema da divulgação e promoção, mas também implica que os críticos critiquem, que os ensaístas pensem e trabalhem e escrevam e falem, que a sociedade produza, afinal, pensamento novo. Isto, pelo menos, seria o ideal.

A realidade é que os críticos vêem cada vez menos, os novos filmes aparecem cada vez menos, cada vez menos surgem novos talentos e, se surgem, são logo atraídos para o cinema ‘velho’ o qual, contudo, não os recompensa pelo talento, mas por quanto cada filme gere, de lucros... E lá estamos, outra vez, em colisão frontal contra o muro de dinheiro, que intimida, quando não esteriliza, os novos talentos.

Teremos uma chance, se inventarmos uma possibilidade real de difusão, em pés de ‘concorrência’, de todos os produtos que o cinema está gerando. A força das majors norte-americanas está em que são os atacadistas, distribuem no atacado e, assim, controlam o mercado. Constróem monopólios... que acabarão por matar, também para eles mesmos, a galinha dos ovos de ouro. A galinha dos ovos de ouro está na multiplicidade, não na uniformidade que, aliás, é cada vez mais cara... e um dia explode, como todos os monopólios sempre explodem.

“A crítica também está presa no paradoxo do ogro.”

Estamos vivendo os momentos finais de um sistema, no qual todo mundo protege todo mundo, ao mesmo tempo em que todos fazem ares de ‘criticar’ os outros, uma ‘crítica’ que, de fato, mais preserva do que visa a transformar. É hora de mudar os modos de produção, de distribuição, de difusão e, também, os modos de ver. O que está aí está agonizando. Jamais houve, na história da humanidade, uma invenção que não tenha encontrado imediatamente o seu utilizador, no sentido mais forte da palavra ‘utilizar’. No cinema, é muito evidente: o cinemascope é Nicholas Ray, o zoom é Rossellini, a película ultrassensível é Godard etc. Quando se instalar um sistema de difusão por cabo, tudo mudará.

Com o vídeo e o computador, não dou dez anos para que haja uma revolução total no sistema. Aconteceu no final do ano 1000, do primeiro milênio, e está a ponto de acontecer também no cinema. Em no máximo 15 anos haverá uma revolução. Acho que as salas de cinema sobreviverão: o teatro não morreu, apesar de ter sido ‘morto’ pelo cinema, como dizem tantos. Desaparecerão as cabines de projeção, talvez se possa receber os filmes em casa, as telas aumentam cada dia mais, ficam mais planas, quase de hora em hora. Como o atual sistema de distribuir filmes poderia sobreviver?

Vai acontecer um terremoto, voltaremos a técnicas antigas. Afinal, o grande cinema sempre foi artesanal, mesmo que não tenha sido só artesanal, mesmo que só a ‘carpintaria’ não baste. E ninguém precisa manter-se preso no seu próprio sistema. Veja os filmes dos Straub, que são modelo de produção autônoma e autogerida. Os Straub atingiram a perfeição absoluta no sistema deles. E é claro que também é preciso respirar, ver o mundo à volta de cada um. Quem se fecha em si cria no entorno uma atmosfera irrespirável, mesmo que seja ‘intrigante’ ou ‘interessante’; é insuportável, mesmo assim.

“Godard, o inescapável.”

Para mim, o único cineasta incontornável, do qual ninguém poderá jamais escapar é Godard. Godard é o grande cineasta do fim do século 20, mas é também o maior artista vivo, consideradas todas as artes. Godard oferece cinema de conhecimento, extraordinariamente aberto. Não estou dizendo que seja alguma espécie de Bíblia, mas é indispensável mergulhar no sistema de Godard, também para, se for o caso, sair dele. Godard abre tantas possibilidades – porque pesquisa e propõe perguntas –, que dali se pode partir para praticamente qualquer coisa. É o autor das mais belas e ricas imagens que o cinema jamais ofereceu, não só ao cinema mas às artes plásticas.

Aprender a digerir Godard é processo lento. Godard está 25 anos à nossa frente. É preciso paciência. No início, o público fugia dos filmes de Rossellini, sobretudo durante a fase com Ingrid Bergman. Hoje há Hou Hsiao-hsien, Kiarostami, Coppola, De Palma, até Cronenberg; também, na França, há revelações, mas ainda não há grandes confirmações. Desplechin, por exemplo.

O documentário

Quanto ao documentário, voltamos à necessidade que todos estão sentindo de ver cinema de conhecimento. Comolli e outros. O documentário propõe uma pergunta importante ao cinema: que imagem, para que olhar? A câmera só tem um olho. Este olho tem de olhar de um determinado modo. Que modo é este?

“O espectador é parte constitutiva do filme. Trata-se de exumar a inteligência do espectador.”

Tenho certeza de que os espectadores acompanham tudo isto e recuperarão a fé no cinema. Se se aceita que o espectador seja parte constitutiva do filme, tudo é possível. Mas degrada-se o espectador se se o vê como alguém que se quer pegar pela goela, para arrancar dele o máximo de dinheiro possível. O público não é uma entidade desconhecida. O público é gente como a gente: às vezes, temos cintura dura, cabeça dura, temos preguiça de pensar. Mas o público também inclui gente que quer pensar, que sabe pensar, gente inteligente. Em muitos casos, trata-se de exumar a inteligência do público. Ou, ao contrário, trata-se de favorecer a preguiça geral. Aí, o movimento é no sentido de embrutecer, de abastardar cada vez mais a inteligência, até, dos mais inteligentes e dos que queiram pensar.

“A interatividade é bobagem, para o cinema.”

Não acredito na tal de ‘interatividade’, para o cinema. Vejo como uma espécie de traição. O pior que poderia acontecer é dar aos espectadores a falsa idéia de que eles ‘sabem de cinema’, que conhecem cinema. A idéia de que qualquer um pode brincar com imagens e, assim, mostrar-se ‘criador’. A ‘interatividade’ no cinema é uma espécie de armadilha: as possibilidades são limitadas, estão contidas nos programas. Converte a arte em uma espécie de joguinho de criança. É bobagem.

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Isso há mais de dez anos.

14 comentários:

valeska disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
valeska disse...

... a distribuição é o cocô no sapato mesmo..

valeska disse...

(arrumando)
Contribuição enorme essa entrevista. ando lendo e percebendo manofestações sobre um olhar cansado do espectador que se depara com sua própria imagem no cinema... nem se reconhece... uma fabricação primária do real que não satisfaz mais. essa entrevista descreve uma espécie de preambulo disso. não é? E a busca pelo extra campo hj...? Em contrapartida ao abuso do contracampo? vc relaciona estas coisas, bruno?

Anônimo disse...

Se censuran las opiniones contrarias al blog. Eres un fachilla y Douchet a parte de sus apariciones en los filmes de Eustache o Monteiro, no ha hecho nada que merezca la pena. Pero claro portugueses y españoles siempre bajandose los pantalones con los franceses, sobretodo si vienen de Cahiers. agur fachilla

bruno andrade disse...

Olha só amiguinho, vamos acertar o ponteiro com relação a algumas coisas.

1) "Opiniões contrárias a esse blog", assim, dessa forma, no genérico, NÃO, não são censuradas, entendido? Até porque acho difícil um "blog" ter uma opinião. O que nos leva a um corolário: opiniões contrárias às opiniões de quem edita esse blog também não são censuradas, para que isso fique bem claro. Eu não publico, e deliberadamente, dois tipos de comentário: os que não auxiliam, contribuem ou progridem em nada uma discussão sobre uma determinada postagem (comentários sofistas caem nessa categoria), e os que não são assinados, os "anônimos" - como, por exemplo, o seu comentário anterior. Os critérios são esses, e se não gostas, you can have it my way or take the highway.

2) O seu primeiro comentário não foi publicado eu diria que em 70% por não ser assinado e em 30% por não contribuir muita coisa a uma eventual discussão. Eu digo 30% porque é mais ou menos nessa porcentagem que eu acho que o Douchet erra. Nem tanto nas escolhas e nos gostos, mas nas formulações e seus enunciados. De qualquer modo, há pouca coisa em crítica de cinema (Mourlet, Lourcelles, Biette) superior ao que ele produziu nos anos 60 sobre Hitchcock, Lang ou Losey, e por intermitências a partir dos anos 80. Pode-se discordar ou concordar; esteja à vontade para ambos quando assim quiser, mas por favor, identifique-se. É o mínimo do mínimo.

3) Baixar as minhas calças, eu o faço somente para moças que cobram de 200 a 400 reais e aceitam Mastercard ou Visa. Não sei o quanto acompanhas esse blog aqui, e também não me interessa; o que eu sei é que há pelo menos uns três anos que eu falo mal, e bastante mal, numa base quase semanal, ou da crítica brasileira, ou da crítica americana, ou da crítica francesa (principalmente a da escola Cahiers). Assim e desta forma mesmo, no geral. Isso não impede que eu reconheça algumas coisas, como por exemplo que o Brasil nunca teve uma tradição de bons críticos de cinema, apenas algumas exceções esporádicas (Sganzerla passando o cajado para Jairo passando o cajado para o Inácio que dificilmente passa esse cajado para alguém); que a França teve, no passado - um passado que a cada dia que passa fica cada vez mais distante - uma tradição de bons críticos, e pessoalmente estou pouco me fodendo se concordas ou não, pois se trata de um fato incontestável (Mourlet, Lourcelles, Biette, Douchet, Demonsablon, Legrand, Bré etc. etc. etc. bla bla bla), mas uma tradição muito menos hegemônica e pacífica do que se imagina e se pinta hoje em dia. A crítica americana, bem, ela sempre foi essa merda que é hoje, e talvez até pior no passado.

Não lhe devendo maiores satisfações ou explicações, e acreditando que não deves aparecer mais por aqui, lhe digo só mais o seguinte: crie um mínimo de vergonha na cara, seja homem e identifique-se antes de chamar alguém de qualquer coisa, seu vagabundo.

bruno andrade disse...

Ah sim: não sou português, seu mocorongo imbecil.

Anônimo disse...

Curioso pseudo-debate. El anónimo comunicante (español, para vergüenza) se revela, además de muy grosero, como un auténtico fascista neanderthaliano, que sin duda ni ha leído a Douchet, si es que sabe quién es, ni entiende lo que dice, en gran parte acertadísimo (y hasta profético, si es de hace más de diez años; ¿por cierto, de dónde procede el original?), aunque, como siempre y con todo el mundo, sea imposible estar de acuerdo al 100%. Pero suena, ay, como alguien a quien lo que duele es que Douchet elogie a Godard o Kiarostami.
Miguel Marías
PD. Pongo Anónimo porque no sé si puedo poner alguna de las otras cosas, pero firmo siempre.

bruno andrade disse...

Para mim nem mesmo debate é, Miguel. Minha intenção era apenas dar o troco na mesma moeda prum indigente que nem mesmo se identifica - coisa que aliás você sempre fez por aqui, mesmo que assinando no campo de baixo.

bruno andrade disse...

Com relação ao original, o que sei é que não foi originalmente publicado no Cahiers. Quanto ao ano, é uma certeza: não por acaso ele fala de Eyes Wide Shut, e na versão original, que era um pouco mais longa, e que não consigo mais encontrar na web, ele falava detidamente sobre os laboratórios-vídeo que De Palma e Coppola ensaiavam, respectivamente, com Snake Eyes e a Zoetrope.

Anônimo disse...

Empezaré por la firma. ¿qué más les da a ustedes que me llame anónimo, Joao de Deus o María de la O si no me conocen, ni me conocerán nunca? Cuando uno no es "alguien" para los demás, como sí lo es mi admirado Miguel Marías, la firma de anónimo me parece la más apropiada. Como bien ha dicho el Sr.Bloggero, se puede decir que soy un indigente y esa condición me conviene perfectamente. En Francia para ser considerado un indigente, basta con no tener en el bolsillo dinero suficiente para comprar pan y debo decir que eso me ha ocurrido y me ocurre constantemente.

Firmas a parte, en relación a mi comentario a la entrevista de Jean Douchet, del cual el Sr.Bloggero sólo ha publicado la parte correspondiente a mi colérica reacción por causa de haber sido censurado (¡ya era la tercera vez!), debo aclarar que mi intención en un principio era la de abrir el debate sobre esta figura tan endiosada de la crítica francesa. Años atrás seguí muy de cerca el ciclo de películas que presenta cada año Jean Douchet en la Cinémathèque Française de París. Había leído L'Art d'aimer que sin aportarme gran cosa, tenía el merito de su bello título y también algunos de sus artículos sobre la Nouvelle Vague donde había sabido ver la revolución que suponían las primeras películas de Jacques Rozier o de Agnès Varda (señalando muy justamente la influencia de La pointe courte sobre Hiroshima mon amour). Más allá de estas lecturas asistí al ciclo Douchet especialmente motivado por el áurea que tenía el crítico. Lamentablemente quedé muy desilusionado. A cada nueva presentación me decía a mi mismo "¡no volveré!", "¡qué sarta de sandeces!", "¿pero quién ha dicho que este señor sea tan buen crítico?". Hasta que uno con el tiempo va creciendo, va afinando su gusto y llega un momento que decide mandar a freír espárragos al áurea de los personajes públicos (que no deja de ser un negocio) y juzgar con sus propios sentidos. Con mis propios sentidos entonces opino. Con mis propios sentidos nunca conseguí acabar el libro de Mourlet porque se decían demasiadas barbaridades, con mis propios sentidos consideré que Jean Douchet no era hoy un crítico a tener muy en cuenta y con mis propios sentidos, por no ser nadie y no pertenecer a ninguna familia de críticos prefabricada, le pongo a su disposición Sr. Bloggero mi comentario para que usted juzgue si merece o no ser censurado.

Un indigente orgulloso

bruno andrade disse...

Uma boa resposta, nada de indigente nela, e dou-me por satisfeito que tenhas se identificado de alguma forma.

Devo dizer que também me encontro numa situação em que tenho pouco dinheiro; no passado cheguei até mesmo a me encontrar numa situação em que por vezes nem tinha dinheiro para o pão, quando morei no Rio. Uma observação final quanto a isso, porém: aquelas imagens que recolhi do filme do Rousseau, de uma péssima qualidade conforme você mesmo escreveu, eram as únicas às quais eu tinha acesso. Acho estranho você agora falar nesses termos pretensamente "humildes" sobre si mesmo quando antes não parecias minimamente capaz de tolerar a possível indigência - de meio, de recursos - com a qual outros buscam acessar o cinema (mesmo que titubeando, tremendo diante de algo que os atormentam e até mesmo lhes queimam os dedos). Quanto à colagem/seleção: aceito qualquer crítica ou reprovação àquela reunião agoniada de imagens (era o primeiro trabalho de Rousseau que eu havia assistido, e me via estupefato diante delas, verdadeiramente aturdido, não sabia nem mesmo como pensá-las, e era a intenção naquele momento e naquele post expor justamente essa incompreensão diante de algo novo), mas um mínimo de etiqueta faz-se necessário, mesmo entre indigentes (eu diria que sobretudo entre eles): o meu nome acompanha aquela postagem, bem ou mal feita, e o seu deveria ter acompanhado a sua crítica a ela. Insisto: é o mínimo e não há indigência, seja esta financeira ou de escrúpulos, que justifique leviandades.

Agora, sobre próprios sentidos... Estes sempre existem, e é evidente que lhe são próprios – como os meus também me são, independente do que venhas a achar ou querer sugerir sobre eles –, agora sugerir que eles não provém de uma construção, de uma vivência, nem que esta venha daquilo que você teve que reprovar para chegar ao refinamento destes sentidos, sugerir que esse refinamento provém simples e puramente de uma qualidade intrínseca sua e de forma alguma extrínseca ao que tenhas assistido, lido, discutido, escutado, vivido; desculpe-me, mas isso é simplesmente um pouco tendencioso demais, um pouco prepotente e a essas alturas um pouco velho também (nessa tradição romântica de não querer pertencer a família alguma já foram produzidas coisas muito boas – Mallarmé, Nietzsche, Pola X, Zohiloff –, mas cachorro não se mata a grito, e não é isso que lhe torna uma figura mais ou menos estóica ou resistente na sua indigência). Colocando de uma outra forma: eu não pertenço a famílias pré-fabricadas, camarada. Eu tenho gostos, predileções - e só. Eu não espero pela permissão do Mourlet para gostar de Antonioni e Marcel Hanoun, não peço permissão para o Pedro Costa para gostar do James Cameron, não preciso da autorização do Straub para gostar de Michael Mann e Sur un art ignore (que ademais me auxiliou sobremaneira a compreender os cinemas de Straub, Costa, Hanoun e Rousseau e também os de Mann, Cimino e outros). Minha liberdade de espírito é algo que tenho em altíssima conta, foi dificílimo de conquistá-la e da mesma forma como a sua me inspira respeito eu espero um pouquinho menos de precipitação da sua parte quando decidir o que e como sou as coisas que sou ou deixo de ser. Nada tenho contra um indigente orgulhoso, tudo a favor aliás; mas como bom indigente que eu mesmo sou não tolero, como não tolero nos filmes, nos livros e em tudo o que permito que chegue a mim (o que precipita em grande parte uma eventual indigência, mas disso já deves saber), não tolero comportamento de adolescente estúpido que quer chamar a atenção, e devo dizer que até agora o seu esteve mais para esse que para aquele.

Anônimo disse...

Buena respuesta, Bruno. Lo cierto es que se ha terminado por plantear una cuestión que creo interesante objetivamente. Dentro de que la subjetividad no sólo es inescapable, sino que es lo único "original" que se puede aportar, es cierto que no existe en estado puro y autónomo, sino que está hecha de lo que hemos vivido, pensado, sentido, hecho o dejado de hacer, soñado, leído, visto, y que los demás - actuales o antiguos, mucho o poco - nos influyen, a ser posible selectivamente (tomamos de Douchet o Mourlet lo que nos interesa o convence o inquieta, no todo dogmáticamente). Y eso, a su vez plantea difíciles continuidades: se puede estar TOTALMENTE de acuerdo con una persona unas veces y TOTALMENTE en desacuerdo otras. Así, y he hablado muchas veces, en los últimos años, con Douchet, aunque sólo le haya escuchado una conferencia (magnífica, sobre la NV), en principio escucho su opinión con la bastante confianza como para volver a ver un film que me gustó poco, y a veces le he dado la razón y otras no. Pero me pregunto si es coherente que alguien que dice admirarme desprecie a uno de los críticos que yo he admirado más continuadamente desde hace casi 50 años, en parte porque tiene una capacidad de abstracción de la que carezco (y que puede hacer que resulte críptico o pedante), es un poco raro, como si alguien que está de acuerdo con mis opiniones detesta precisamente a Ford, Preminger y Godard... ¿no sería pura contradicción? ¿U os parece normal?
Miguel Marías

Anônimo disse...

1)Me parece que les estoy haciendo perder demasiado tiempo, así que no entraré en más aclaraciones. Me ha quedado claro que para ustedes dos Douchet sigue siendo alguien a tener muy en cuenta. Yo preferiré seguir leyendo a Bresson o a Godard.

2)Al responsable de este blog: sus explicaciones han sido bastante claras respecto a lo que le ha molestado sobre mis comentarios. Las entiendo y le pido entonces disculpas por este instinto adolescente que me cuesta controlar cuando me tocan al orgullo.

3)Aprovecho viendo que no soy tan anónimo para disculparme también por la crítica que hice en su día a la disposición y la calidad de las fotos de la película de Rousseau. Ahora están bastante mejor presentadas. Creo que la pobreza o la indigencia no deben ser excusa para no aspirar a las formas más elevadas. En ese sentido la película de Rousseau me parece el más bello ejemplo.
En todo caso aunque no me crea: muchas gracias por su blog. Sus contenidos son de gran calidad.

4)Y a Miguel Marías: Miguel, no se tome tan a pecho mi admiración. Eso de ser coherente y no contradictorio es la tarea de una vida. Aunque debo precisar que yo no he dicho porque le admiro. Quizás sea porque fuma en pipa.

el mismo indigente

bruno andrade disse...

Não esperaria, como aliás não espero, que minha indigência jamais chegasse ao refinamento máximo da indigência de um Rousseau. No mais, concordo em gênero, número e grau: a indigência não deve mesmo ser desculpa para não se aspirar a formas mais elevadas.

Agradeço o elogio, mesmo não acreditando nele, e gostaria que você continuasse comentando por aqui. Mas por favor: restrinja o tom grosseiro à minha pessoa quando o fizer, ok? E peço para que assine de alguma forma seus comentários.

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