quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão.

7 comentários:

bruno andrade disse...

Entendeu, Tarantino?

João Gabriel disse...

Pensando sobre isso... Não seria alguém que escreve Ecce Homo, por exemplo, não seria, na verdade, de uma extrema humildade? A humildade de reconhecer sozinho, que fala em nome próprio, de ser a medida de si mesmo, cada palavra sua língua própria, que não pede por nenhuma companhia ou seguidor, como, aliás, considera-os, em todo caso, impossíveis?

Deve haver vários exemplos. Foi o que me veio à mente.

bruno andrade disse...

A gente falou do Vincent Gallo, então vamos pegar ele como exemplo: tem gente que o chama de filho da puta (como já vi sendo feito com o Sganzerla), tem gente que o chama de sacana (como já vi sendo feito com o Sganzerla), e no entanto, qual foi o grande pecado dele quando fez, por exemplo, TBB?

"A humildade de reconhecer sozinho, que fala em nome próprio, de ser a medida de si mesmo, cada palavra sua língua própria, que não pede por nenhuma companhia ou seguidor, como, aliás, considera-os, em todo caso, impossíveis"

E talvez isso, essa impossibilidade, explique o repúdio dele às considerações hellmanianas feitas a partir de TBB. É bastante inegável que o Hellman seja uma das referências artísticas mais pesadas do Gallo - Buffalo foi escrito para que Hellman o dirigisse -, mas essa humildade de que falas - que uma certa mentalidade de horda, exorbitante aqui no Brasil, encara justamente como a encarnação suprema da arrogância - não é exatamente o que torna qualquer "companhia" e "seguidor" (e Deus sabe como choveu na hortinha do Gallo de 2003 pra cá, com todos esses filmes proto-sensíveis com empréstimos de Warhol, Cassavetes, Apichatpong, quando não escancaradamente da cena do pára-brisa de TBB etc.) algo profundamente impossível no caso dele?

Da mesma forma como Lang não é usado por Godard para qualquer legitimação de ordem ecunêmica, ou Bach, Corneille, Schoenberg, Vittorini pelo Straub, Beethoven, Puchkin e Modigliani pelo Freda.

A solidão, realmente, é o preço que se paga por essa atitude, que de fato nada mais é que uma forma de humildade, mas uma que nada tem a ver com o tipo de frouxidão comumente atribuída à idéia de ser humilde e sim, muito pelo contrário, com a firmeza com que se leva adiante um trabalho digno de ser chamado disto.

E, no entanto, é absolutamente necessário acreditar que há um mesmo fôlego que contagia as palavras de um Faure, um plano do filme do Alain Cuny, as idéias do Nietzsche, uma página de Henry Miller. Ao menos é para mim.

bruno andrade disse...

Ou, como bem disse o Carax numa dessas entrevistas para Holy Motors: "Devia ser obrigatório o ensino de coragem nas escolas."

João Gabriel disse...

Sim! Faço relações bem mais claras da frase com Gallo do que com Tarantino/Godard (entendo a relação entre ambos, mas não muito bem deles com a frase). Estou me apoiando também, talvez com facilidade, em dados externos (por exemplo, a recepção de Brown Bunny), mas de fato isso é mais claro pra mim.

Como bônus: http://vimeo.com/25905746

bruno andrade disse...

Bem, há uma relação fácil demais para se estabelecer: basta comparar a forma como se encerra o plano inicial d'O Desprezo, o contre plongée do Coutard empunhando a Mitchell com o céu ao fundo e o cabo da girafa na lateral esquerda do quadro, com aquele plano final asqueroso do Bastardos, após Pitt e cia. talharem a suástica na testa do "That's a bingo!": uma representa e sintetiza a consciência moral de todo um cinema que seguiu a segunda guerra e a descoberta dos campos de concentração (a Mitchell empunhada pelo Coutard, ao mesmo tempo que encara/é encarada pela câmera do Godard, estilhaça esse espelhamento por também estar mirando algo que se situa para além desse reflexo, e por isso mesmo vê-se implicada por essa distância intransponível - e, portanto, moral - que há entre nós, a sala - os filmes nessa época ainda eram feitos para serem vistos principalmente em salas - e a câmera), a outra espelha muito bem essa abjeção que o Rivette descreve no texto em que trata do filme do Pontecorvo, um espelhamento que pela sua própria natureza, bem como por aquilo que vem a projetar, opõe-se radicalmente ao do Godard: um espelhamento que, finalmente, satisfaz-se em se conter bastante mesquinhamente em si mesmo.

Mas há uma outra relação que me satisfaz mais: quando o Godard coincide a imagem do Coutard com a Mitchell à frase do Mourlet, ele está de certa forma liberando/delimitando/deflagrando (tudo ao mesmo tempo) esse "olhar que se substitui ao nosso para nos dar um mundo em acordo com nossos desejos". Ao final do filme, o que temos? Ulisses e a Mitchell (e a rapaziada da Technicolor também) lado a lado, ou, como diz a legendinha praticamente ilegível das imagens que pus mais acima, "Ulisses e A Odisséia redescobertos pelo cinema", o que abre um horizonte crítico ("após haver demolido tudo"...) e litúrgico no mínimo muitíssimo mais complexo e generoso que o do filme do Tarantino, ou seja, bem menos ligado aos escrúpulos mais do que duvidosos de um cineasta que faz com que o espectador se sinta na obrigação de se engajar a uma causa (o anti-nazismo do Tarantino não passa disso: uma idéia-choque cuja expressão é a mais convencional que dela se poderia fazer) por meio de uma cumplicidade charlatã (sorrisinho do Brad Pitt ao final que o diga), um tipo de chantagem artística consumada que em momento algum dá qualquer chance para uma reflexão que seja verdadeiramente profunda e não profundamente superficial como a que propõe Tarantino.

Tomar emprestada uma imagem/idéia cara ao Godard para me fazer mais claro: um começa com a prece e termina com a missa, o outro faz exatamente, calculadamente (o que é ainda mais aterrador) o contrário.

Só sendo muito, mas muito míope para fazer bico pro trem-fantasma do Lista de Schindler a partir do que propõem os textos do Daney e do Rivette e depois bater palmas para a excrecência adolescente do Tarantino. Os dois - Spielberg e Tarantino - fazem exatamente a mesma coisa no fim das contas, que é representar uma idéia-choque pela forma mais ultra-convencional, mandrake possível; apenas as poses mudam (filantropia abjeta, macabra e inadequada para o objeto que tem em mãos num caso - ambigüidade marota, perfeitamente calculada e por isso mesmo nem um pouco ambígua no outro).

E eu tenho bem poucas dúvidas que o devir-irmãos Coen do cinema do Tarantino irá se consolidar de vez com o próximo filme.

bruno andrade disse...

Por sinal, já que entre toda essa conversa falamos de pelo menos um filme decisivo: rip lindo do Le camion no KG.

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